4.6.14

interstício

Não deixe o candeeiro apagar.
A noite é fria, teu corpo é duro,
Aguenta os três mundos.

Leve a vida,
Como quem morde uma duvida.
Siga em frente...

Se o caso for de choro,
Não te darei o miserável consolo.
Bom mesmo sentir junto.

Mesmo que seja diferente,
Ainda é choro.
De flauta, violão, lágrima...

Hoje quero-te sorrindo.
Não só mostrando os dentes,
Mas deixando vazar sonhos por teus tantos poros. 



28.5.14

Pantomima para tu

Não que a voz seja fraca;
A culpa é do sentimento. 
Bruto, forte, sem formas...
Ao sair por palavras,
se despedaça na brisa.
Trinca no pavilhão.
Morre ali. 
Não penetra 
por não ser completo. 
É pedaço do pedaço
que num delírio de suposta razão,
complementa a palavra,
numa dança desajustada,
formada por pantomima.

25.5.14

Sorrindo

A dor de meus tantos anos 
aguarda-me em casa.
Deitada do lado direito da cama.

Tenho as pernas bambas,
dias incontáveis,
ideias falhas.

Acredito que posso me desfazer todos os dias.
Nunca fui de amar a vida,
mas sempre fui de morrer de amor.

Doce contado

Poemas curtos,
queimados no ritmo 
triste do momento. 

Lembro-me de tuas mãos,
que um dia dedilharam 
meu corpo morno.

Embolada em tuas pernas,
pensei até que amava.
Mas não!

Indomável e sem batismo.
Fui demais para tua ideia
ou para o teu sentimento.

Nunca pedi para adoçar meus ouvidos,
olhar para os meus olhos,
me tirar para dançar.

O que tive foi pouquinho.
nunca fui de ganancia,
o teu carinho contado 
era oque me ajeitava...

7.5.14

Entre os dentes de Locanaan

Perdidos e impuros que somos,
nos divertimos sobre a bandeja de Salomé. 
Corroídos entre os dentes de Locanaan.

Com as pupilas reviradas 
para mirar os olhos dela.
Fome feminina,
que aprecia o mundo com a língua:

-Deixe-me morrer entre os seios murchos 
das velhas desesperadas.
Entregue-me em pedaços
para os ventos fracos 
que colocam sobras nas bocas dos miseráveis.

Mas antes do fim;
Banhe-me os lábios 
com teu beijo pútrido e carnoso
para provar minha santidade.

 

4.5.14

Retalhos

Aqueles olhos de caipora raivosa,
com a doçura de menina do rio.

Por que alude mulher, 
quando no fundo sabe 
que é tua cor que me alumia?

Em quantas camas deitaste assim por acaso
sabendo que os retalhos de minha colcha
estão aqui, 
esperando teu doce cheiro de alfazema roxa.

Venha com teu vestido de roda.
Descendo a ladeira. 
Quebrando nas curvas.
Destruído tramelas.

Se desmanchando nos blocos.
Colorindo telhados.
Abocanhando a vida
e deixando o mel escorrer...

26.4.14

Grenha

Gosto quando chega mole.
Estabanado.
Espatifado.
Querendo o mundo...

Com estes olhinhos brilhantes,
devoradores dos mundos.
Dos deuses.
Da morte.

Respingo-lhe o tórax
com saliva e gotinhas 
d'água:

Uma gota por mecha.
Sincronia...
Demência de nossos corpos. 

24.4.14

Quase-sorriso

Exagero para te chamar de Deus:

-Beba benzinho, beba!

Rasgue-me os versos.
Fique calando,
estou reparando no teu riso.

Não é pintura. 
É poema.
Então mostre os dentes.

Não estrague a imagem 
com tua voz em Mi.
Cala-te!

Sem beijos 
ou alecrim.
Só teu riso.

Teu riso, sim!

22.4.14

Ode em suspiro

Acontece que os teus olhos 
dos meus já abusaram.
Entenda que tua não sou.

Sou dos ventos que uivam entre as brechas da janela.
Do verso doce que escorre no canto da boca. 
Da ideia rara, que se cala para não se limitar. 

Não me venhas com tua figurativa retórica.
Nem com o teu amar trancado.
Muito menos com teu querer frouxo e idoso.

Preciso de contos bobos.
Pensamentos inúteis para o mundo.
Conversas sem voz, somente olhos.

Tu, não pode com a delicadeza.
Encara o mundo com olhar bovino.
E se perde em papiros, para mostrar a tal idade.

Não me apresente ao belo. 
Quero o ridículo que me faça sorrir.
Não tolo me atice o choro.

Beije-me com os teus lábios em cacos.
Sugue tudo que é teu. 
Leve aquela que um dia fui eu.

A ideia não para.
A prosa não para.
A poeta: 

Só para 
para o suspiro
descontínuo...