27.12.13

Ocelo

Olhos em felpa,
que se abrem por vaidade.
Três peles.
Poros fechados.

Num leque em corpo finito.
Que joga piscadas para o fim.
Ganja, lírio, psilocybe.

O gosto de mil:

Estimulado por saliva,
pernas,
aço,
Língua.

Escorre entre o leque.
Do pássaro que não voa
e não canta.

Que por lamento interno:

Sopra na brisa o amargo
de não ser complemento de ceia
por ilusória perfeição.

23.12.13

Hélicon em lábios

Gaste teus lábios em meu corpo frio.
Quero-te por ser ópio,
Tigresa,
Melindra. 

Por minhas noites em prazer solo:
Violão,
Ponta,
Poema.

Talvez eu te queira por luxo.
Talvez não te queira por nada.

Não sou de entender o suposto querer.

Atualmente: Quero...

Não só olhar para teus compridos 
e castanhos olhos.
Nem  só beijar teus lábios
desenhados por natureza.
Nem mesmo ter teu corpo sobre o meu
ou o meu sobre o teu.

É claro; quero que venha com tudo.

Mas de fato oque quero mesmo
é mais uma vez mergulhar
nesse teu raso profundo:

Hipocrene.
Poça. 
Gota.
Lágrima.

17.12.13

insânia

Vivo de pontas.
Surtos momentâneos.
Cabelos engrenhados.

Não espero perfeição.

Quero o gosto,
Amargo,
Múltiplo,
Extremo.

Entre tragos.
Goles,
Suspiros, 
gemidos.

Sou o anjo de lábios vermelhos.
Ideias torcidos.
Corpo fechado.
Asas roídas.

Beijo-te em público.
Quero algo além lábios.
Quero algo,
além de tudo..Ensandecer

1.12.13

Escarro

Vire teus olhos para o lado oposto
 Veja tua desgraça.
Salive teu sabor de ópio.
Seja mais do que qualquer outro.

O mundo despedaça-se.
Ao tentar bater de frente 
Com tuas loucas ideias.
Teu falho e amarelado sorriso.
Tua pele gasta, curtida de sol.

Não é apenas um nome e um corpo.

É um pensar.
Um gosto.
Um gemido.

24.11.13

Figura

Sinto dor e prazer 
com teu beijo.
Puro luxo sinestésico 
de minha carne.

Venha!

Salive minha epiderme com gosto de ópio,
o suposto pecado que habita entre minhas pernas.
Que vai além e não hipérbole. 

Não me venha dando de ombros.
Não sopre em meus ouvidos teu doce eufemismo.

Entenda:
Sou a metáfora de teu delírio.
A prosopopeia de tua ideia inanimada. 
A metonímia de teu poetar.

20.11.13

Estro

...Loucura talvez?
Olhos miúdos, 
porém falantes.

Sim, olhos falam.

A boca liberta oque dá. 
Os olhos., escondem.

Medos, doenças, delírios, sorrisos, amor, problemas.

Não é só uma mente roída.
É um regalo.
Um orgasmo. 
Uma lira despida.

Apodrecida...

Não inspiro coisa alguma. 
Nunca fui poema.
Sou poeta.

Esparso.
Clímax.
Espasmo.

Não por luxo
ou necessidade.

O que faço?  

Idílio.
Vilancete.
Acalanto...

Tudo mais, jogo na brisa.
No tempo.
No quanto!

17.11.13

A Alquimista parte I

    Numa dessas noites de mormaço vejo-me meio torto, é claro; ser torto é algo comum para um homem feito às avessas. A é, esqueci de me apresentar: Meu nome é Pedro, Pedro Jasão Martins, sou um tanto quanto embriagado, porém não tenho vícios; bebo porque quero, não porque preciso, mas é claro: tudo fica mais digerível com bebidas e um pouco de pó. Acho que ainda não falei sobre as prostitutas, aquelas que são mais psicólogas do que putas. Noite passada estava com uma dessas, bonitinha até: Purpura, bêbada e com olheiras fundas. A pele da pequena moça era macia, com cheiro de cigarro e com gosto de cerveja, não me recordo do suposto nome dela, só me lembro de coisas importantes, como por exemplo oque ela me disse quando acordei:
-Olá rapaz, oque acha de tentar viver um pouco?  O mundo é grande, porém cabe em sua cama. Viver é triste e doente, mas às vezes encanta.
     Após ter dito isso, ela se virou de costas, abriu um pouco a janela e começou a fumar; acendia um cigarro na brasa do outro, acho que ela estava nervosa ou preocupada. Com uma mão segurava o cigarro, com a outra brincava com os cabelos coloridos, eu que não fumo senti vontade de fumar, só para sentir oque ela estava sentindo. A nicotina corroendo os dentes, o cheiro impregnando a pele, os olhos sonolentos e cara de satisfação por ser desprezível.
    Quando moço até tentei “aprender” a fumar, mas não deu muito certo, me engasguei com a fumaça e queimei meu próprio braço, depois disso até tentei fumar novamente, porém acho que nunca vou aprender. Talvez eu não saiba fumar por conta do desinteresse, acho que se eu tentasse fazer tal coisa em meus momentos de depressão, garanto que daria certo, pois o segredo de fumar é buscar satisfação e não brincar de ser vaidoso.
    Voltando a parte importante da coisa: A moça que fuma e brinca com os cabelos usava uns óculos engraçados, na ponta do nariz, ela reparava em tudo, nos carros que passavam na avenida, no pombo que aparentemente sentia fome e nas pequenas cicatrizes de meu braço. Muito educada ela nada falou, mas ficou encarando-as, como quem tenta decifrar o sentindo da vida, ela tentava decifrar o sentido de minhas marcas, aqueles olhinhos compridos de alquimista de poemas sugaram meu estupido eu. Mais que uma puta, uma alquimista, uma fumante; ela foi e é uma espécie de exorcista de corpos ateus, por instantes eu me senti sem “demônios”, sem dor e até mesmo sem vida.

14.11.13

Galgo













Copos emborcados.
Cigarro entre ressecados lábios.
Ideias secas e roídas,
porém vivas, ativas.

Como quem por ignorância sorri.
Não sou de lamentos.
As vezes choro.
Dou cria.
Morredeira.
Mas passa.

Tudo passa.

Tenho corpo de lagarto. 
Perco o rabo.
Fico toco.
Dói.
Mas passa.

9.11.13

Purpura

Tente não reparar no fio envelhecido.
Esqueça o castanho amarelado.
Olhe para o novo.
O purpura.

Combina um pouco 
com filtro do cigarro forte.
Desbota a cor
dos lábios em coração.

Transforma-se em morrer de sol.
 Sangue cigano. 
Corre por veias.
Acaba-se em pó.
Água.
Suor.


4.11.13

Abafadiço












A noite abafada que atrapalha o sono.
O sonho roubado,
por lábios impuros.

A manhã sonolenta que atiça a pupila.
que atrapalha a suposta boa vida. 

Boca amolecida. 
Parnasianismo exato, 
quase podre, roído.

Se desfaz nos ventos de segunda-feira.
É apreciado.
Ridículo.
Amado.
Temido. 

27.10.13

Depois

Esqueça dos seios.
Repare no castanho.
Nos olhos.
No cabelo.

Não percebes que não sou boa moça?

Pelo contrário:
Gosto do ópio.
Tenho olheiras.
Vivo de resto de prazeres.

Não tenho tempo para ferir a moral de meninos. 

Perca a vergonha 
entre as pernas de alguma cachopa.
Tome um gole gim.
Depois, procure-me.

25.10.13

Caído








Repare bem neste meu olho caído.
Não é charme 
ou doença.

É dor aboletada 
de olho que pouco chora. 

Cru.
Forte.
Cruel.

Avermelhado.
Bêbado.
Infiel.

Que da casca veio ao mundo.
Misturou-se ao sangue humano.
E hoje é afilhado da epiderme morena
Que se desfaz no mundo imundo.

20.10.13

Olhos e cachaça

    Fiz oque todo homem sensato evita. Não, não estou falando de troca-troca nem de nada parecido, se fosse isso estava fácil, mas problema fácil não para mim, quando me fodo é por inteiro. E foi nesses extremos de betequim que mirei para olhos miúdos e amendoados. Na verdade olhei primeiro para as pernas, aquele par de pernas compridas e fortes me chamaram a atenção, mas vamos esquecer disso e continuar olhando para os olhos antes que meu garoto comece a subir, sim, chamo meu pênis de garoto, o trato como um filho único e querido, afinal ele cumpre muito bem com suas obrigações de pau. Mas estamos falando dela, perco o foco com facilidade. Continuando... Aqueles miúdos olhos amendoados marcados com um lápis preto e acompanhados por um par de olheiras muito me cativou, não sei muito bem, mas admiro mulheres com cara de ontem, aquela coisinha relaxada de maquiagem borrada e com cara de bêbada sonolenta lembra-me uma puta das antigas, sim aquelas de meretricio, que passavam a noite dançado, cantando, bebendo e fodendo. Não eram chatas com as de hoje que acham que só o fato de abrir as pernas já é alguma coisa. Não vivi neste tempo, mas lembro-me das histórias de meu avô, Folião vira-lata destes que faziam do corpo feminino uma especie de manta, amou uma unica mulher, mas vamos ser realistas, amor nunca castrou pessoa alguma. Hoje sinto-me meio castrado, desconfio que perdi meu juízo em meu ultimo orgasmo. Como eu, justo eu, cai nessa macumba de amor? Não sou homem de fé, mas quando se trata de amor todo e qualquer homem se apega em alguma entidade. Cachaça estragada só pode. Encantei-me por uma poeta e agora é assim: eu a faço de amada e ela transforma minha cara amassada em poema. Vou tomando até a ultima gota, vamos ver quem cai primeiro.

Qualquer coisa

Unhas borradas, 
avermelhadas, 
roídas.

Cabelos bagunçados. 
Libertos. 
Compridos.

Nada é muito importante.
Tudo é qualquer coisa.

Um sorriso.
Um beijo. 
Uma transa.

Coisas da carne.
Do mundo.
Da vida.

13.10.13

18:30

Coloque tua pele alva
sobre a minha.
Mire teu olhar faminto, azulado e ateu  
para o meu.

Seja mais que um homem.

Bêbado.
Louro.
Repente.
Plebeu.

Não me cante com indaga de ontem.
Faça o novo.
O diferente. 
O impuro. 

6.10.13

O que dizem os seus olhos

Aquele refrão de Gilberto 
passou em meus ouvidos.
Fazendo carias em minha pele
e cocegas em meu domingo preguiçoso.

Deixando um sorriso infanto e ameno
nestes meus lábios rosados e marcados.
Uma lágrima escorrendo no cantinho do olho esquerdo. 
E um beijinho frio do suposto enamorado.

29.9.13

Capitolina

Como pudera duvidar de meus olhos?
De minhas caricias?
De meu amor? 

Logo eu,
que entreguei-lhe num decote,
tudo que tenho de bons sentimentos.

Será que não compreende que a carne nada é?
Que oque vale é mais profundo que um querer?

Abra teus olhos.
Esqueça dos meus.

Nunca lhe trai em sentimento.
Sempre pertenci a mim
e por tempo indeterminado,
emprestei-me a ti.

 (Baseado em: Maria Capitolina Santiago)

28.9.13

Clave de Fá

Som grave. 
Cordas grossas.
Dedos calejados.

Um debulhar em Fá.
Blues antigo.
Desmilinguido.

Que vem soprar em meus ouvidos.
Para me ensinar 
oque é amar. 

(Para meu irmão mais que amado Jefferson Gonçalves)

26.9.13

Bem-te-vi

Suspiro de dor.
Cigarro entre os dedos.
Andar dolorido:

-Bem-te-vi.

Choro guardado.
Beijo de mãe. 
Carinho esquecido:

-Bem-te-vi.

Olhar para o mundo.
Com os olhos pagãos.
Que de tortos apreciam o pouco:

-Bem-te-vi...

22.9.13

Sonho solo

O rosto marcado 
por espinhas internas,
pelos encravados
e marcas de trinta. 

Homem bêbado.
De olhos vermelhos.
Sorriso amarelo.
Ideias carnívoras.

Querido e desejado 
pelos olhos fotográficos 
de menina.

Uma torta.
Mulamba.
Faminta.

Que de um sonho despertou.
Despida de panos.
Repletar de amor.

15.9.13

apontamento

A vontade um poeta.
Um beijo de amor eterno.
Um pecado atrás do muro.

Esculpidos de escarros.
De mulambos.
De desacatos.

Nada ali é para sempre.
A vontade muda.
O novo apodrece.

E o que ontem foi 
sonho melindroso 
de menina que não chora.

Hoje é comida.
Pedaço.
Trapo.  

De uma velha roída.
Sem cheiro
ou sabor.

Que de tanto que rezou
entregou-se de vez
a seu senhor.

7.9.13

Invitação

Ó criança de lábios rosados.
Por que fizera mal á quem tanto lhe repara?

Não percebes que a timidez destrói 
os prazeres da alma? 

Deixe o mundo para os mortais.
Sacie teu desejo, prove de meu gosto.
Meu gozo.
Meu beijo.

Sinta todos os meus pecados.
Minhas agonias.
Minhas caricias.

Seja quem você sempre sonhou:
Ator.
Atoa.
Artista.

Tellus

Apresento-lhes uma mente roída.
Uma boca aberta.
E um casal de olheiras.

Sou aquela que muito ama.
Muito quer.
Pouco se apega.

Dispenso o belo bem feito.
Aprecio a cicatriz.
O pecado.
O errado.
O doído.

Guardo em minha pele 
A desgraça de todos.
Pois é de sofrimento.
que se alimenta um poeta.

1.9.13

Desajuste de menina

A pequena bailarina desajustada.
Vestida de rosa.
Pouco sabe da vida. 

Se diz cínica.
Impura.
Poeta.
Puta.

Mas não passa de uma pluma.
Uma criança.
Uma boneca de carne e sonhos.
Que tortura-se com a ideia de ser feliz.

Conquista

Um olhar para a juventude esculpida em carne. 
Uma fila de senhores.
Uma queda de papel.
Um toque leve e tímido de mãos de menino.
Um beijo cítrico telepático. 

O sorriso tímido e quase inacabado. 
A ideia de uma.
O sonho de outro. 
As vontades dos poros.
O controle dos corpos.

A conquista entre crianças.
A falta de conhecimento.
O exagero de pessoas.
O encanto engavetado.

Relato

     Admito: A vida de uma mulher não é a coisa mais linda do mundo e tudo piora quando se é mulher e prostituta. Sim, isso mesmo, sou uma mulher e sou puta, dessas bem ordinárias, que derrubam grandes impérios, matam mulheres doídas e enlouquecem homens afortunados. Não sou muito de reclamar de minha vida. Gosto de meu trabalho, gosto de meus clientes e muitas vezes até chego ao orgasmo. 
    Já passei por muita coisa, fui de elite á lixão numa velocidade unica. Sou puta por prazer, por amor a profissão é claro, nada é divino, a principio você se sente um pedaço de carne surrado, mastigado e cuspido, mas depois tudo muda, você começa a sentir a satisfação de um insatisfeito, o prazer de um faminto o amor de um desconhecido e o ódio de uma esculhambada. 
    Nunca cogitei a ideia de ser uma pessoa fiel, bem vestida, aceita pelo mundo e calada pela sociedade. Sou uma bêbada torta, demente, bonita e vendida. Tenho em minha pele todos os pecados e prazeres da carne humana e pretendo morrer assim: Satisfazendo meus amantes e sorrindo para o ódio das desamadas.

26.8.13

Escancaro











Com antigo amores 
escorados em seus poucos sentimentos.
Com olhos apertados
e com uma dor envelhecida.

A boca ainda é rosada.
O riso, não se apaga.
Todo dia é carnaval.
Todo dia é primavera.

O escancaro da boca.
O pecado feminino.
A ideia que não morre. 
Pois gozo é o divino.

25.8.13

Inacabado

Curando dores de parto.
Com as dores do fim:

O ultimo suspiro.
O ultimo tango.
O ultimo arrepio.

Com beijos desbotados.
Gotas de vinho.
E orgasmos gorados.

Um fim digno de um suposto amor, 
inacabado.

19.8.13

Sabores

Mal acostumada com 
as ideias de minha terra. 

Gosto dos venenos fortes.
Das idéias loucas.
Dos problemas sem respostas.
Dos pecados da carne.

Tenho nos lábios 
vinte e cinco gostos.
Vinte e cinco homens.
Vinte e cinco peles.

Poucos me marcaram.
Poucos ficaram.
Poucos restaram. 

18.8.13

Continue

Liberte-se benzinho.
Descabele-se.
Descongele-se.

Se for preciso, apague a luz.
Tome um gole.
Dê dois tragos.

Vá de nariz empinado. 
Peito aberto.
Corpo tatuado.

Não importe-se com o tempo.
Vá nua.
Ao relento.

Mesmo doente,
continue.
Siga em frente.

Meio torta.
Exposta. 
Viva.

17.8.13

Mar

O mar é um poema em movimento.
Vagaroso.
Agitado.
Belo.
Modesto.
 
Cheio de acréscimos.
Rimas.
Versos.


Compromisso

Sem estatísticas.
Metas.
Ou bonitos sorrisos.
 
Vamos nos aproveitando.
Compartilhando suor.
Experiências.
Salivas.
 
Não nos importamos com o amanhã.
Vamos nos desfrutando.
Nos amando.
Nos chupando.
 
Até que acabe o gosto.
O prazer.
O fogo.
O gozo.


Cru

Tenho olhos cansados.
Avermelhados.
Doídos.

Faço do violão meu amigo.
Meu descarrego.
Minha miséria.

Não danço mambo.
Não me penteio.
Não sou bom moço.

Reparo o inútil:
O poema.
O confuso.

Sou uma prosa.
Um velho.
Um bandido.

(Uma singela homenagem ao cantor e compositor Sérgio Sampaio)



12.8.13

Poros

Deixe teu gozo
vazar por teus poros.
 
Adentre com tua carne quente.
Tua boca miúda.
Teus dedos longos.
Teu sexo cru.
 
Sinta minha pele.
Seja minha pele.
 
Prove do meu ópio.
Aceite todas as brisas.
Faça-me de musa.
Seja meu pianista.

9.8.13

Quereres

Preciso de teu gosto.
De tua pele.
De tua alma.
 
Coloque teu corpo mole
sobre o meu.
 
Quero lhe sentir por inteiro:
O macio das mãos.
A suavidade da voz.
Os grossos pelos homem.
 
Venha salivando.
Jorrando teu vinho.
Compondo tua arte.

7.8.13

Deleite

Nasci antes do tempo:
Sou um poema prematuro.
 
Nunca pensei em ser feliz.
Gosto de minha dor.
 
Acredito que um suspiro enjeitado
é muito mais belo que suportar um amor eterno.
 
É quase um pecado
dedicar-se a uma única pessoa.
 
Minha pele não é eternar.
Meus amantes não são eternos.
 
Preciso de novas salivas.
Novos movimentos.
 


O pianista

No emaranhado dos cabelos;
pingos de notas.
 
Som puro.
Mãos compridas.
Pulsos doídos.
 
Batidas de salto.
Sorriso.
 
Plateia.
Delírio.

30.7.13

Néctar

Num repouso de andorinhas
frias e cruéis,
Sinto-me néctar.
Um doce puro.
Colhido por abelha branca.
 
Fazendo um dourado mel.
Para ser roubado, doado,
desperdiçado e salivado,
por uma língua com gosto de fruta.
Morango, melão, mexerica, melancia...
 
O sabor do verão.
O zunido da abelha.
O canto das andorinhas.
O calor dos corpos.
O sorriso da vida.

27.7.13

Doce

   Com os dedos magros e gélidos para fora das mangas de lã Carlos escreve.
Batidas fortes de datilografo moído, vinho doce feito sangue, palavras miúdas e uma esposa por opção. Digo por opção porque no fundo as pessoas se casam por obrigação, gravidez, frustração, carência, dinheiro, amor, sexo e outras parafernálias mais.
   Carlos se casou por vontade mesmo, não é bem um casamento, na verdade é um remendo de trapos.
Homem vivido, quarenta e sete anos, folião de raça, sem filhos, sem emprego e que as vezes se veste de poeta. Foi gingando no balaço da colher-de-pau de uma mulata baiana que atravessou o São Francisco para vender cocadas na praça General Tibúrcio. Claudio a pedido de uma de suas namoradas de ocasião foi comprar cocada branca; ao se aproximar da humilde barraca de improviso foi logo mirando na moça. A cor, o suor, tacho, em um curto tempo Carlos desejou bolinar aquele grande "tacho." Aquilo para ele era carne nova, estava acostumado com moças fracas, fumantes e meio adoentadas, porém encantou-se por uma moça ainda sem nome, uma vendedora de cocada, matuta de sorriso ameno.
   A moça sem nome na verdade se chama Helena, não a bonita de Tróia, mas sim o resto de parição, filha caçula de dona Maria, uma ex-prostituta  que largou a profissão para viver de acarajé, cocada e patuá, mas isso não vem ao caso. Helena quando reparou os olhares do moço de cabeça grisalha se acanhou um pouco, porém revidou com gosto. Olhou para tudo e amoleceu quando mirou para os olhos claros de Carlos. Até hoje ela diz que tem sorte por ter um homem que sorri pelos olhos.
  A valsa de olhares não durou muito, apenas o bastante para a carnes e as almas trocarem farpas e flores, um carinho e um murro antes mesmo do toque de peles, uma troca de salivas psicológica, um beijo fatal para dois. Aquilo foi mas que qualquer sentimento já inventado. Não foi preciso um namoro, um noivado, um casamento ou um divórcio. Foi coisa pura, aconteceu como quem anda só e encontra uma pequena pedra, vai chutando delicadamente até chegar em casa. É uma coisa simples, Sem amarração, aconteceu por acontecer. Carlos faz poema, Helena faz cocada, Maria faz de tudo, a namorada de ocasião espera por doces e a pedra continua a rolar.



25.7.13

Tumor


Teu gosto do ano passado
malogrou-se em minha garganta.
 
Se eu tivesse uma alma,
diria que ela tem um tumor.
 
Um câncer maligno.
Sem cura ou pudor.
 
Vai estragando os órgãos,
a carne, a pele...
 
Atravancando meu imenso céu.
Acalantando meu furioso mar.
 
Fazendo de minha boca,
seu descarrego de misérias.


23.7.13

Cores de família

Pertenço a uma família de bêbados.
Sorridentes, pilantras, melindrosos.
Loucos, malandros, dengosos.
 
Fazem folia até em velório.
Colorem o mundo.
Amamentam os filhos.
 
Abrem os braços.
Viram copos.
Tragam o fumo.
 
A cachaça amarelinha
é o melhor edredom
para quem gosta de sorrir.
 
"Sei que vou morrer,
por tanto continuarei
Com meu podre hábito de ser feliz."


19.7.13

Fio de saudade

Numa dessas noites de insônia
deparo-me mentalmente com tua face.
Um rosto comum, com olhos escuros,
boca pequena, nariz arredondado,
e cicatriz no queixo.
 
Ainda guardo teu cheiro de cerveja e erva.
Teus pequenos beijos ateus.
Tuas longas sumidas.
Teus amigos estúpidos.
E tua delicadeza ao sorrir.
 
Para outros
minha saliva de fruta.
Para você o sabor ópio
escondido em meus finos
lábios cortados.

16.7.13

Sonhos e cinzas


Arquivista de sonhos
e cinzas.
Um suspiro.
Uma ideia.
Um cigarro.

Um toque breve.
Doente e demente
de corpos doídos.
Que se acabam em um trago.

Como quem acorda e sorri.
Toma um café.
Beija um estranho.
Conserta poemas.
E vai acabando-se por ai.

14.7.13

Palato


Sinto o sabor do vento
entre os dentes.
O cheiro de nicotina.
A luz da meia-lua...
 
Com lábios roxos.
Mãos quentes.
E pensamentos vadios.
Transformo-me em pó.
 
Não pretendo viver muito.
Não nasci para pertencer a eternidade.
Vivo para chegar ao fim.
 
Aprecio o vinho, o bêbado, o cio.
Amor, este substantivo abstrato e decadente.
Sentimento velho para minha alma infantil e doente!

Lascívia

Anoiteço em minha pouca idade.
Alumio meus olhos.
Desnudo-me.
Faço de meu corpo
meu alimento.
Sinto meu gosto entre
o anelar e o médio.
Salivo-me.
Deslizo para meus bicos endurecidos.
Aperto com rigidez o cansaço de minhas pernas.
Paro com tudo: Fumo um cigarro.
Sinto o sabor do vento pelos poros.
Tomo alguns goles de vinho.
Sonho, alucino.
Vejo-me em regalo em próprios braços.
Pertenço a mim mesma
e não pertenço a coisa alguma.
Sou um bocado de ar
e morro a cada suspiro.


12.7.13

Espasmo

Uma dor aboletada em minha carne.
Acharcando meu aguerrido coração.
Pedaço sofrido de carne doente.
 
Minhas pernas se contorcem.
Um seio ancho corrompe
ideias atordoadas e afoitadas.
 
Fazem meus rachados lábios
tremerem de frio ou fervura.
Fazendo-me viva, talvez única.
 
Voo com asas quebradas.
Traço poemas ufanos.
Entrego-me a todos, entrego-me ao mundo.


11.7.13

Todos os gostos do mundo

Tenho na língua todos gostos do mundo.
Guardo todos, por puro prazer.
Faço comparações, notas, poemas.
Acho excitante a ideia descendo fria pela garganta.
 
Talvez a ideia seja um suco.
Uma fruição.
Um sopro.
Mas não.
 
A ideia é uma pequena ferida aberta.
Cujo o melhor é remédio, é uma boa chupada.
É beber de teu próprio eu.
Provar de tua própria carne.

8.7.13

Nos lábios dos enamorados

Olhos apertados.
Sorriso largo.
 
Um seio para fora.
Outro entre dentes.
 
Leves mordiscadas
com beijinhos de peixe.
 
Pernas abertas acalentam
o magro corpo do enamorado.
 
Beijos são doados
e roubados.
 
Almas desavisadas
perdem-se entre gozos e fronhas.
 
Gritos manhosos.
Arranhões, hematomas.
 
Um doce eu te amo
escapa dos finos lábios.
 
A noite morre,
mas amor continua.


6.7.13

Velhos tempos

Em meus babélicos pensamentos corre teu nome.
Um nome que chegou como uma coceira.
Coçou, coçou, até sangrar, virar ferida.
 
Pergunto-me se pelo menos por um instante
você por puro descuido lembra-se de mim. 
Do meu cheiro, dos meu beijo ou
algo mais insano tipo meus caprichos em versos.
 
Lembro-me de cada linha de teu rosto abjeto.

Torturo-me com a cor de seus olhos.
As vazes canto, vezes choro.
 
Um choro fraquinho, feito uma modinha.
Que vai despedaçando-se no ar.
Acabando-se em lamento.
perdendo-se em velhos tempos.


5.7.13

Mais que um gosto

O amargo da cerveja
Encontra-se em meus lábios.
Substituindo beijos potoqueiros
que um dia foram guardados.
 
O álcool ajuda.
Mas não o bastante.
Penso em cair na vida.
Quem sabe acabar com o mundo.
 
 Procuro novos corpos.
Algo profícuo.
Que não seja apenas mais um gosto.
 
Algo que dure mais que uma noite.
Uma cerveja.
Ou toda a eternidade.